Os filósofos iluministas foram
aqueles que confiaram à Razão humana o poder supremo para a conquista da
verdade ou para o desvelamento da realidade encoberta pelas aparências que se
manifestam aos sentidos. Tomaram a Razão como luz para iluminar as trevas de
nossa ignorância a respeito do universo que nos cerca. Para filósofos como
Immanuel Kant, a Razão é nosso maior suporte não só para interpretar a
realidade do mundo material mas também para nos guiar às melhores condutas no
campo da moral e da ética. Assim, Kant elaborou sua famosa Teoria do
Conhecimento em que demonstra nosso modo racional de apreensão da realidade, a
maneira como, partindo dos sentidos, chegamos à mais elaborada das formas de conteúdo do pensamento: a Ideia.
Começou por delimitar bem as fronteiras entre os fenômenos que a nós se revelam
e a realidade em si ( ou o ser das coisas), à qual, segundo ele, jamais
poderemos ter acesso. No plano da ética, o tema da liberdade foi um dos mais
importantes de sua teoria. Para Kant, liberdade é a capacidade humana de transcender
às determinações ou imposições orgânicas e sociais a que estamos sujeitos, fazendo
escolhas racionais que atendam a
interesses de longo alcance, não apenas aos imediatos. As definições da teoria kantiana influenciaram
profundamente a Ciência que passou a desenvolver métodos de pesquisa baseados
na teoria do filósofo. Kant também inspirou movimentos sociais e políticos que
marcaram o século 18, entre eles a Revolução Francesa que teve a liberdade como
uma de suas palavras de ordem e cujas consequências nos afetam até os dias de
hoje.
Neste blog, apresento textos sobre os temas desenvolvidos ao longo do curso de Filosofia.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
DEFINIÇÃO DE NÚMERO NA METAFÍSICA DE ARISTÓTELES.
Na Metafísica de Aristóteles, a aritmética é um campo de
estudos capaz de nos mostrar, com bastante clareza, alguns dos aspectos mais
importantes de seu sistema filosófico: um desses aspectos é a definição de
substância. Para o filósofo grego há, em nosso universo, uma substância
primordial, da qual tudo se deriva, causa primeira de tudo o que existe e que
não é causada por nenhuma outra coisa. Esta substância primordial e imóvel estaria
eternamente presente no universo. Em outras palavras, a substância é um ser que
não é inerente a outro e “nem se predica de outro: existe independentemente e
não é predicada de algum substrato, mas é aquilo do qual todo o resto é
predicado” (In: Metafísica, Aristóteles).
A substância, portanto, pode ser chamada de “um primeiro”.
Então vamos transpor esta definição de substância para os
números. Sabemos que todo e qualquer número natural é composto por unidades e
que essas unidades não se diferenciam umas das outras. Quer dizer, para os
números, a substância primordial é a unidade. Ela é aquilo de que todos os
números são compostos. Por isso, podemos dizer que, para os números, a unidade
é a substância primeira. Com efeito, o número dois, por exemplo, é composto por
duas unidades, o três, por três unidades, e assim por diante. Tais unidades não
se diferenciam entre si, são indistintas, ou seja, nenhuma unidade é maior ou
menor que a outra, todas são idênticas e imutáveis. Na linguagem própria à
Filosofia, dizemos que os números não são formados por uma multiplicidade de
particulares. Por exemplo: o número 3, que é composto por 3 unidades é igual a
1a + 1b + 1c, sendo cada uma dessas unidades como um clone da
outra, sem distinção de quantidade ou de qualquer outra forma de diferenciação.
Portanto, não é verdade que 1a é menor ou maior que 1b e este menor ou maior que
1c.
Em Aristóteles, também encontramos os conceitos de matéria e
forma e os de potência e ato aplicados aos números. De acordo com o filósofo
grego, matéria é tudo aquilo de que algo é composto; forma é o ser ou a ideia
presente na matéria e que dá sentido a ela. Assim, por exemplo, tendo madeira
como matéria, a ela podemos submeter a forma canoa ou outras formas como as de
mesa, cabo de vassoura ou cassetete. Estas são formas que contêm a ideia
universal que temos do que sejam essas coisas. Em relação aos conceitos de ato
e potência, neste mesmo exemplo temos que a madeira tem, em potência, todos os
objetos que dela podem ser derivados.
E como estes conceitos são transpostos para os números? Como
explicamos anteriormente, no sistema aristotélico a unidade da qual se compõe
todos os números é relacionada à substância primordial, imóvel e eterna, causa
incausada, causadora de todas as outras coisas, também chamada motor imóvel do
universo. Para Aristóteles, a unidade numérica, por ser a substância dos
números, deve ser entendida muito mais como forma, que é princípio de
determinação ou, pelo menos, como sínolo (junção) de matéria e forma, porque trata-se
de algo que é determinado, que tem uma essência ou um sentido em si mesmo. Ele
afirma que a unidade não pode ser entendida como matéria porque esta é indeterminada,
ou seja, não assume certos limites capazes de lhe conferir um sentido. Ainda de acordo com Aristóteles, a unidade se
relaciona mais ao ato, que é uma existência efetiva, do que à potência, que é
poder-ser, ainda-não-ser.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
CONHECIMENTOS ANALÍTICO E SINTÉTICO.
Aula 3 – Filosofia da
Matemática.
Conhecimentos analítico e sintético
Sérgio Augusto Borges
De acordo com a Filosofia da Matemática, é na ciência Matemática
que mais se apresenta um tipo de conhecimento considerado dos mais precisos e
abrangentes e que podemos obter sem recorrer à experiência, sem necessitar dos
sentidos. É o conhecimento que foi denominado pelo filósofo Imanuel Kant de conhecimento sintético a priori. Para dar uma noção precisa do que seja este tipo de
conhecimento comecemos por explicar o porquê da palavra “sintético” aí
presente: o termo sintético se explica pelo motivo de que este conhecimento –
conhecimento sintético a priori - é capaz de desvendar a relação entre dois
conceitos que, à primeira vista, não têm qualquer conexão entre si. O
conhecimento sintético pode ser comparado às ligações químicas que ocorrem
entre elementos completamente diferentes, mas que, ao serem misturados, formam
algo mais, dão origem a outro elemento também consistente, mas que não estava necessariamente
presente naqueles elementos químicos que o formaram. Ou seja, o novo elemento pôde
ser formado graças a uma síntese de
outros elementos que tinham apenas o potencial de formar este novo elemento.
A síntese química
ocorre no plano empírico. Na Filosofia, o corre a síntese de conceitos mentais,
e ela pode ser feita sem recorrermos à experiência empírica, ou seja, pode
ocorrer independentemente dos órgãos dos sentidos. Vamos citar um exemplo: a
frase “a linha é a menor distância entre
dois pontos” pode ser considerada um conhecimento sintético a priori. Porque este juízo não está
presente ao analisarmos os conceitos dos termos presentes na frase... Ou seja,
a afirmação de que “a linha é a menor
distância entre dois pontos” não pode ser deduzida das análises, em separado,
dos conceitos de linha, ponto e distância. Não há nada nas definições destas três palavras que nos
leve a crer que o juízo formulado a partir delas seja verdadeiro, ou seja, o
juízo de que “a linha é a menor distância entre dois pontos” não é intrínseco
aos 3 conceitos analisados conjuntamente e muito menos fica explicito ao
analisarmos esses três conceitos em separado. Os conceitos de linha, ponto e
distância já estavam presentes em nossa mente quando formulamos o juízo,
portanto, não tinham relação com os sentidos, eram conceitos a priori que, ao serem sintetizados pela
razão, formaram um novo conhecimento, um conhecimento
sintético a priori, a priori porque não precisamos, recorrer
à experiência para deduzir o juízo “a linha é a menor distância entre dois
pontos”.
Para que fique ainda mais claro o que seja o conhecimento
sintético a priori, que é o conhecimento
tido como o mais completo pelos filósofos, vamos agora definir um conhecimento
que se diferencia dele: vamos falar do conhecimento analítico. Para estabelecer
essa distinção, o filósofo Emanuel Kant recorreu à noção de juízo. Segundo ele,
temos um juízo quando sabemos alguma coisa ou quando temos uma crença de
qualquer espécie. O ato mental de formular um juízo é um ato de ligar conceitos
que estão reunidos na consciência. Por exemplo: alguém que sabe serem todos os
solteiros pessoas não-casadas reuniu, em sua consciência, o conceito de
solteiro e o conceito de não-casado (estes conceitos foram ligados de uma maneira
que a Lógica chama de universal afirmativa). O juízo segundo o qual todos os solteiros são não-casados é
exemplo de um juízo analítico, já que o conceito de não casado é parte
intrínseca, é inerente ao conceito de ser solteiro. Aqui, mais uma vez, podemos
fazer uma comparação com a Química: nesta ciência fazer uma análise é o ato de
isolar de alguma coisa um de seus componentes, ou seja, podemos perceber, por
análise, o que está contido em uma
determinada substância, o que é uma propriedade inerente a determinada
substância, sem a qual, tal substância não seria ela mesma, seria algo
diferente do que é.
Então, seguindo as ideias de Kant, podemos definir dessa
forma a diferença entre conhecimento analítico e conhecimento sintético: um
juízo é analítico se não for nada mais que a reflexão em torno dos conceitos do
juízo e em torno da forma de combinar esses conceitos. Quando o juízo é
analítico esta reflexão é o bastante para nos dar a certeza de que o juízo é
verdadeiro. Mas em um juízo sintético essa reflexão em torno dos conceitos e de
sua forma de combinação é insuficiente para nos dar a certeza de que o juízo é
verdadeiro. Para saber da verdade deste juízo é necessário apelarmos para algo
mais.
O mesmo raciocínio pode ser feito substituindo-se o conceito
de juízo pelo de enunciado. Isso, para evitar o preconceito dos que afirmam que
a noção de juízo tem um viés demasiadamente psicológico ou refere-se apenas a
um fenômeno mental. Assim, um enunciado
será sintético se
a mera compreensão deste enunciado nunca for suficiente para determinarmos sua
verdade. Um enunciado sintético é aquele cuja verdade não pode ser
determinada apenas por meio da compreensão deste enunciado. Os exemplos
mais bem acabados de verdades analíticas são as verdades lógicas. Então,
reparem em duas formas de verdades lógicas, frases que têm as seguintes formas: primeira: “Todos os isto e aquilo são isto e aquilo”. Segunda: “Se alguns assim são tais e tais, então
alguns tais e tais serão assim assim”. As duas formas lógicas apresentam
verdades incontestáveis. Todo e qualquer conteúdo que possa ser encaixado
nessas duas formas lógicas, nos indicará imediatamente algo verdadeiro. Um exemplo com a primeira forma, ou seja, “Todos os isto e aquilo são isto e aquilo”:
“Todos os cães são cães”. Um conteúdo
que se encaixe na segunda forma, a forma lógica “se alguns assim são tais e tais, então alguns tais e tais serão assim
assim”: a frase “se alguns cães forem
criaturas inteligentes, então algumas criaturas inteligentes serão cães”.
Não há dúvidas de que os dois enunciados acima são verdadeiros. São verdadeiros
simplesmente por causa da maneira como estão arranjadas as palavras lógicas
“todos”, “alguns” e “se”. Portanto, são verdades lógicas. Podemos afirmar que
todos os enunciados (ou juízos) que têm formas lógicas que fazem com estes
enunciados sejam verdadeiros, são enunciados analíticos. Os enunciados
analíticos dependem apenas de suas formas lógicas para serem verdadeiros.
Mas, atenção: há enunciados que são analíticos mas não de
forma tão óbvia, podem ser analíticos de um modo oculto. Nesse caso, é preciso
saber descobrir ou desvelar sua analiticidade, quer dizer, precisamos tornar
explícito aquilo que está oculto no enunciado.
Para dar um exemplo, vamos analisar a seguinte frase: “todos
os oculistas são médicos da vista”, fazendo de conta que ainda não conhecemos o
significado da palavra oculista. Esta
frase tem a seguinte forma lógica: “todos os assim assim são tais e tais”, uma forma
que, quando aplicada a casos concretos, não garante dá garantia de verdade a
todos os casos: por exemplo, sabemos que não é verdadeiro que “todas as
estrelas sejam luas”. Portanto, o enunciado “todos os oculistas são médicos da
vista” não parece verdadeiro em virtude da forma lógica, quer dizer,
aparentemente não é um enunciado (ou juízo) analítico pois sua forma lógica não
determina sua verdade. Mas imagine,
agora, que, de um momento para o outro, passamos a perceber que há neste
enunciado a intenção de empregar a palavra “oculista” como significando “médico
da vista”. Quando descobrimos este significado da palavra oculista, estamos
autorizados a dizer que o enunciado original “todos os oculistas são médicos da vista” tem o mesmo sentido do
enunciado “todos os médicos da vista são
médicos da vista”. Agora sim, temos um enunciado que é verdadeiro
simplesmente em virtude de sua forma lógica, pois “todo A é igual a A”. Então, temos a garantia de que o primeiro
enunciado é, sim, um enunciado analítico. Isso porque pôde assumir a forma de
uma verdade explicitamente lógica graças ao apelo que fizemos a uma definição,
neste caso, a definição da palavra oculista. Para que fique mais claro: um
enunciado verdadeiro é analítico se, e somente se, for verdadeiro apenas em
virtude da sua forma ou se, mediante uso de definições, puder ser tornado
equivalente a um enunciado que seja verdadeiro em virtude apenas de sua forma
lógica. Um enunciado falso seria analítico se, e somente se, fosse falso apenas
por causa de sua forma lógica ou se pudesse, mediante emprego de definições,
ser transformado em um enunciado que fosse falso apenas por causa da sua forma
lógica. Um enunciado será sintético se, e somente se, não for analítico.
Para Kant, o juízo sintético é o que possui os maiores
problemas para a Filosofia. Sua grande vantagem é a de fazer a ligação entre
conceitos que não se acham relacionados intrinsecamente, não possuem entre si
uma conexão óbvia e conseguem exprimir conjecturas muito importantes a respeito
do mundo. Mas, como ter a certeza de que são verdadeiros se a forma lógica que
possuem não nos dá esta certeza. Quando um juízo sintético tem caráter
empírico, as experiências dos sentidos são capazes de justificar, por exemplo,
o juízo de que “nenhum gato voa”. Já vi gatos e percebi como eles têm corpos
e comportamentos diferentes dos pássaros. É esta experiência que obtive por
meio dos sentidos que me permite emitir o juízo “nenhum gato voa”.
Mas e quanto aos juízos
sintéticos a priori? Em que podemos nos basear para justificar as suas
verdades, já que estes não contam com a experiência sensorial como garantia ou
como fonte de justificação? Aqui, está, segundo Kant, a origem dos mais
profundos problemas filosóficos. O conhecimento
sintético a priori, portanto, não
é justificável pala experiência dos sentidos, já que ele é a priori, ou seja, é um conhecimento que obtemos graças a uma
operação mental, sem precisar recorrer a nenhum dos nossos sentidos. Além disso, esse tipo de conhecimento não é
justificável pela conexão intrínseca dos conceitos que ele utiliza, quer dizer,
os conceitos estão ligados entre si por alguma conexão que está fora destes
mesmos conceitos, uma conexão que não faz parte desses conceitos que se ligaram
e que, além do mais, não
está, necessariamente ou comprovadamente presente no mundo empírico. Esta
conexão pode ser considerada o terceiro elemento que é capaz de tonar o
enunciado verdadeiro ou de justificar o conhecimento. Para Kant, é de grande
importância compreender de que maneira podemos obter o conhecimento sintético a
priori. Segundo ele, é na Matemática que estão os melhores e mais claros exemplos de tais
conhecimentos.
CONHECIMENTOS EMPÍRICO E A PRIORI.
Aula
2 - Filosofia da Matemática
Conhecimentos
empírico e a priori
Sérgio Augusto
Borges
Para
que a gente entenda por que a Matemática é filosófica, ou por que a Filosofia
se preocupa com a Matemática, é bom saber que, na Matemática, os filósofos se
deparam com questões que sempre foram as
mais importantes para a Filosofia como, por exemplo, questões ligadas ao
significado, à verdade, à realidade e ao
conhecimento.
Um
exemplo para ilustrar o modo como a Filosofia se debruça sobre a Matemática,
mais especificamente sobre a Geometria: a Geometria de Euclides, que muitos
filósofos consideram a descrição do mundo físico, parte do pressuposto de que o
ponto é aquilo que não tem partes. Mas, no mundo real, conhecemos algo que não
é composto de partes? Atualmente, a Ciência tenta provar a existência de uma
partícula ainda menor que o quark, que existe dentro do próton. Mas haverá um
fim para essa busca da comprovação empírica da partícula indivisível? Ou a
descoberta de partículas menores que as menores já conhecidas será possível a
cada novo avanço tecnológico?
O
fato é que a Geometria de Euclides, “imagina” a existência do ponto ou dos
pontos indivisíveis que comporiam o mundo físico. Este é um dos seus
postulados. Pois é dessa forma, “imaginando” a existência de unidades
indivisíveis, que a Geometria é aplicada à realidade. Arquitetos e engenheiros,
geralmente, não se preocupam com o pensamento filosófico suscitado pela
geometria, satisfazem-se com suas obras que podem ser tanto úteis quanto belas,
ou seja, o importante é o fato de a geometria ter-lhes uma utilidade prática.
Mas a Filosofia vai além do postulado de Euclides, pois
pode pensar assim: se um ponto não tem extensão, porque não é composto de
partes, mesmo um número infinito de pontos não iria compor um volume no espaço.
Então, seriam os pontos apenas ideias de nossa mente? Ou seriam coisas reais
mas que não podemos observar? Os princípios da Geometria são mesmo verdadeiros?
Como adquirimos – se é que adquirimos – conhecimentos geométricos e como é
possível que esses conhecimentos sejam aplicados ao mundo sensível?
As controvérsias aumentaram ainda mais com o surgimento das
Geometrias não-euclidianas.São Geometrias que também são legítimas do ponto de
vista matemático mas que são incompatíveis com as leis da Geometria Euclidiana.
Então, se geometrias incompatíveis entre si, são matematicamente legítimas, de
que modo podemos conceber a verdade na Matemática? Como é possível que duas
leis incompatíveis entre si sejam verdadeiras? Será que os matemáticos pouco se importam com a noção de Verdade?
Neste caso, por que estudar Geometria se pode ser definida como uma preocupação
a respeito da verdade acerca do espaço?
Um grande número de questões semelhantes também se
apresenta na aritmética, a Matemática dos números. Nesta, procura-se o
significado dos termos empregados, pergunta-se se podemos ou não alcançar a
verdade e até mesmo se essa parte da Matemática é um caminho para a busca de
alguma verdade. Pergunta-se também sobre o tipo de conhecimento que podemos
adquirir com a aritmética e quer-se saber se as leis dos números podem mesmo
ser aplicadas ao mundo real.
E, na
aritmética, pode-se fazer um questionamento forte: o questionamento a respeito
da própria existência da Matemática. Em Geometria é possível entender os
princípios hipoteticamente, sem que eles tenham que garantir a existência de
alguma coisa. Por exemplo: “Se existe uma figura que é um triângulo, então a
soma de seus ângulos é igual a dois ângulos retos”. Não existem, na Geometria,
leis como “Existe um triângulo”. Na
aritmética, a Matemática dos números, por outro lado, há muitas leis que
parecem, realmente, garantir a existência de certas coisas; Exemplo: “Existe exatamente um número y tal que o
produto de x por y, seja qual for x, é igual a x”. É uma lei que que tenta
garantir, de modo bem claro, a
existência de alguma coisa – neste caso, o número um. Portanto, não há aqui um
sentido hipotético como na Geometria, há mesmo um sentido de existência.
Mas, que tipo de
existência estaria sendo afirmado pela aritmética? Que espécie de realidade? Seria uma existência em sentido literal, ou seja, a existência de algo
que é, de fato, da maneira como é definido? Ou seria uma existência apresentada
em sentido figurado, que pretende
apenas indicar ou expressar alguma coisa por uma via indireta, por similaridade
ou equivalência? Observem que aí estão os problemas da Filosofia da
Matemática que apontamos no início deste texto: questões acerca do significado,
da verdade, da realidade e do conhecimento. De acordo com o filósofo da
Matemática, Sthephen Barker, a maior parte dos matemáticos dá apenas atenção
superficial a essas questões fundamentais. A estes matemáticos, o filósofo
norte-americano faz um alerta: os problemas filosóficos presentes na Matemática
são muito sérios do ponto de vista intelectual e não podem ser deixados de
lado. Mesmo quando esses problemas se revelam como erros de interpretação, tais
enganos não são de fácil eliminação, ao contrário, são frequentes e
importantes. Não podem ser ignorados para que se evitem enganos que serão ainda
maiores.
INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DA MATEMÁTICA.
Aula 1 – Filosofia da
Matemática.
Sérgio Augusto Borges
Para nos apresentar uma abordagem filosófica da Matemática,
há estudiosos que começam por uma reflexão acerca do modo como nosso cérebro
(ou nossa mente) “funciona” quando voltamos o raciocínio para a resolução das
questões matemáticas. Esta abordagem tem muito a ver com as diretrizes da
Filosofia Moderna que começou a predominar no século 17 e que tem como duas de
suas principais referências os filósofos René Descartes e John Locke.
Você então se pergunta: por que as diretrizes da Filosofia
Moderna podem ser associadas a uma abordagem filosófica da Matemática? É que a
Filosofia Moderna concentrou suas especulações na Teoria do Conhecimento, que
tenta desvendar as formas de o pensamento pensar sobre de si mesmo, ou seja, os
filósofos modernos foram aqueles que mais pensaram sobre o pensamento. Logo, se
tento elucidar a maneira como a mente “trabalha” ao lidar com as operações matemáticas,
estou usando a própria mente para pensar sobre algo que ela mesma faz.
Apesar de esse tipo de reflexão sobre a mente ter se tornado
a maior preocupação filosófica a partir da Idade Moderna, ele sempre esteve
presente ao longo de toda a história da Filosofia. Desde os filósofos
pré-socráticos, o Conhecimento sempre foi pensado a partir de duas diretrizes
fundamentais, chamadas de Empirismo e Racionalismo. Para os filósofos
empiristas, nosso raciocínio depende de fatos empíricos para comprovar a verdade,
quer dizer, a verdade só é comprovada a partir dos dados que obtemos no contato
com o mundo físico. O tipo de conhecimento obtido por meio dos sentidos é
chamado de conhecimento empírico ou a
posteriori.
Já para os filósofos racionalistas, chegamos à verdade apenas
por meio de operações mentais, as quais seriam totalmente independentes dos
sentidos. Os conhecimentos verdadeiros seriam, então, sempre os conhecimentos a priori. A expressão a priori serve para indicar que nossa
mente, ao utilizar certos procedimentos racionais, é capaz de antecipar
verdades que estão presentes na realidade. Entenda-se “antecipar”, neste caso,
como chegar às verdades antes de qualquer contato sensível que possamos ter as
manifestações das verdades no mundo físico.
Estas duas formas de pensar sobre o pensamento verdadeiro (a
dos racionalistas e a dos empiristas) também servem de referência para a
Filosofia da Matemática, mas isso não quer dizer que os filósofos da matemática
concordem plenamente com essa dicotomia. O filósofo da matemática norte-americano,
Stephen Barker, por exemplo, considera superadas estas duas formas de pensar o
pensamento. Para ele, empirismo e racionalismo têm uma concepção mecânica do
funcionamento da mente humana, seriam psicologismos.
Barker nos dá um exemplo que, segundo ele, evidencia o quanto
é obscura a diferença entre conhecimentos empíricos (ou a posteriori) e a priori, que
é o tipo de conhecimento verdadeiro exigido pelos racionalistas:
Barker nos conta que, para diversos filósofos, a ideia de vermelhidão
poderia ser abstraída pela mente depois do contato sensorial de nosso corpo com
uma multiplicidade de objeto vermelhos. Não poderíamos, porém, abstrair a ideia
de virtude quando contemplamos atitudes que seriam virtuosas. Para Barker, essa
forma de pensar baseia-se na “abstração”, uma teoria frágil por não esclarecer
ao certo quais conhecimentos podemos e quais não podemos abstrair a partir do
que é “dado” na experiência sensorial. Afinal, por que cargas d’água a ideia de
vermelhidão poderia ser abstraída do contato visual com os diversos tons de
vermelho mas a ideia de virtude não poderia ser abstraída das experiências de
virtude que podemos ter ao vivenciar ou observar atitudes virtuosas?
Por isso, a Filosofia da Matemática deve, primeiro, fazer uma
distinção mais precisa entre os conhecimentos empírico e a priori. O conhecimento empírico é aquele que requer justificação
da experiência. Portanto, não podemos apenas acreditar ou crer em algo e considerar essa crença um conhecimento. Por
exemplo: não posso saber que os corvos são pretos apenas entendendo o
significado da frase “os corvos são pretos”. Crenças, mesmo quando verdadeiras,
não são conhecimentos se lhe faltam justificações. Preciso, portanto, possuir
evidências empíricas para afirmar que algo é verdadeiro, ou seja, preciso ter
visto inúmeros corvos ou penas deles ou ouvido alguém falar sobre eles para
afirmar que corvos são, de fato, pretos. O conhecimento empírico, portanto tem
sua justificação em dados empíricos, dados que são captados por nossos sentidos.
Se não tenho nenhuma evidência observacional sobre os corvos, é falso dizer que
sei que eles são pretos.
A influência da experiência é diversa em outros tipos de
conhecimento. O conhecimento de que “os corvos são aves”, por exemplo, é
entendido pelos filósofos como sendo a
priori. Isso porque ninguém precisa ter examinado corvos de forma direta ou
indireta para dizer que sabe que eles são aves, assim como não é preciso ter
feito experimentos físicos para saber que moléculas de hidrogênio são moléculas
ou que haverá tempestade amanhã, se vier um tufão. São casos em que a única
experiência necessária é aquela que habilita uma pessoa a entender as palavras
em que o conhecimento se exprime. Se entendo o significado da palavra corvo,
sei que, inerente a ele, está o conceito de ave, quer dizer, um corvo,
necessariamente, é uma ave e não um réptil ou mamífero. Em resumo, conhecimento a priori é aquele que não precisa ser justificado pela experiência.
Para tornarmos mais precisas as distinções entre conhecimento
empírico e conhecimento a priori,
vamos agora apresentar a distinção entre dois tipos de raciocínio: o raciocínio
dedutivo e o raciocínio indutivo. O
dedutivo relaciona-se mais ao conhecimento a priori, vejamos por quê. Na dedução, pode-se saber a priori que, não havendo erro lógico e
desde que as premissas sejam verdadeiras, a conclusão também terá de ser
verdadeira. Vejamos o exemplo de uma forma lógica que faz com que seja válido
um argumento dedutivo:
“Todo $$$ é
///; Nenhum *** é ///; Logo, nenhum *** é $$$.
Pode-se saber, a priori,
que, sendo verdadeiras as duas primeiras frases, ou seja, as premissas, a
conclusão terá de ser verdadeira. O argumento é válido por causa de sua forma
lógica, mas sabemos que tais fórmulas não são condição suficiente para que
todas as conclusões sejam verdadeiras ou plausíveis. Seria a fórmula lógica do exemplo acima e outras consideradas tão
verdadeiras como ela, inerentes ao nosso raciocínio? Seriam formas “impressas”
em nossa mente e, por isso mesmo, formas a
priori de conhecimento? Ou seriam apenas algumas formas possíveis de se
raciocinar, adotadas por nós, humanos, apenas por terem, ao longo de milhares
de anos, dado prova de eficiência a favor de uma nossa melhor adaptação ao
mundo em que vivemos? Haveriam outros mundos onde as mesmas formas lógicas não
funcionariam tão bem e teríamos que nos utilizar de outras que mais nos
conviessem?
A reflexão acima especula sobre a possibilidade de o
raciocínio dedutivo, relacionado ao conhecimento a priori, não ser assim tão independente e distante da realidade
concreta do mundo físico que nos rodeia com suas qualidades sensoriais específicas
as quais, tradicionalmente, são apenas relacionadas ao conhecimento empírico.
O raciocínio indutivo,
por sua vez, sempre associado ao conhecimento empírico, também abre margem para
conclusões não totalmente justificadas pelos sentidos. A conclusão obtida sempre expressa uma
conjectura empírica muito mais ampla do que a que é expressa pelos dados. Não
se pode, portanto, saber, a priori, que a conclusão terá de ser verdadeira se
os dados forem verdadeiros. Um exemplo: imagine que eu tenha observado muitos
corvos, constatando que todos eram pretos. Posso, então, raciocinando
indutivamente dizer que muito provavelmente todos os corvos são pretos. A
verdade dos meus dados não constitui garantia a priori para a conclusão de que
todos os corvos devam ser pretos, sejam aqueles hoje vivos, os que já nasceram
e morreram e os que estão por nascer no futuro. Na melhor das hipóteses, o que
se pode é dizer que os dados apoiam e confirmam a conclusão, sem garantir a sua
verdade. Assim, posso dizer que o raciocínio indutivo tem um quê de dedução,
uma vez que deduz uma verdade mesmo sendo impossível a verificação empírica de
todos os corvos em qualquer tempo e lugar.
Feito este esclarecimento sobre conhecimentos empíricos e a
priori podemos, então, partir para uma importante questão filosófica pertinente
à Matemática: seria esta ciência uma semelhante à Física, cujos conhecimentos
baseiam-se em dados obtidos por meio da experiência que temos do mundo físico?
Ou seria como a Lógica, preocupada em verificar a validade das regras que
organizam o pensamento para melhor relacionar o pensamento com a realidade? A conclusão a que parece chegar o filósofo
Stephen Francis Barker é a de que, partindo das tradicionais concepções de
conhecimento a priori e empírico, não fica afastada a
possibilidade de existirem conhecimentos empíricos que não sejam exclusivamente
traduzíveis em termos de conceitos empíricos, assim como não fica afastada a
possibilidade de existirem conhecimentos a
priori que não sejam exclusivamente traduzíveis em termos de conceitos a priori. A Matemática seria, então, uma ciência que estaria
em uma região de fronteira entre estas duas formas de conhecimento: manteria
relações com a realidade empírica mesmo sem utilizar-se de dados empíricos
obtidos em nossa relação imediata com o mundo, ao mesmo tempo em que extrai de
dados empíricos deduções que não poderiam ser de todo comprovadas por se
referirem não só a objetos existentes, mas também aos que já existiram ou ainda
existirão.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
EDUCAÇÃO QUE NÃO SERVE PRA NADA.
"Pro dia nascer feliz" é um excelente documentário sobre a Educação no Brasil, seja nas zonas rurais, periferias ou bairros nobres das metrópoles. Me pediram pra fazer um texto sobre o filme que está disponível, inteiro, no Youtube. Quem tiver um tempinho, leia o texto e me diga se ficou legal. Aí vai:
Uma vez, a cantora Elza Soares, ainda uma caloura em programas de rádio, deu uma resposta surpreendente ao apresentador Ary Barroso, da Rádio Nacional, que lhe perguntou, em tom jocoso, de que planeta ela viera. “Do planeta fome”, disse a cantora, ao vivo, para todo o Brasil, deixando o grande compositor desconcertado.
Pois esta fome num sentido amplo, ou seja, não só de comida, mas também de amor, amizade, cultura, relações humanas, prazer, reconhecimento e tantos outros valores e sentimentos primordiais para qualquer ser humano, foi o que percebi nos estudantes pobres mostrados pelo filme “Pro dia nascer feliz”. O documentário revela como tanta carência chega a se tornar absurda quando nos apresenta as meninas que vão à escola apenas para encontrar namorado ou para ter algum outro tipo de “escape” de suas vidas pequenas, medíocres, insensatas.
É um problema social imenso que se reproduz há séculos e que não tem como estar ausente de tantas escolas das periferias ou áreas rurais do Brasil. Mesmo assim, essa fome de tudo que é o básico parece ser pouco levada em conta pelas instituições de ensino que podem até acolher os jovens fisicamente, mas não encontram meios de fazê-los desenvolver-se espiritual e intelectualmente. A exceção a esta regra vem do “esforço de Hércules” de alguns poucos professores com alguma sensibilidade artística, boa formação teórica, além de generosidade e sabedoria para transmitir aos filhos da miséria algum sentido existencial.
Na maioria das vezes, professores e professoras não têm o alcance do compromisso moral, intelectual e espiritual necessário para compreender e lidar com a complexidade das relações humanas num contexto de ensino-aprendizagem dentro desta realidade que é a nossa. Assim, comportam-se de maneira tecnicista, como meros transmissores de conhecimentos prontos, o que os distancia dos alunos porque não se mostram capazes de qualquer esforço criativo e em conjunto na busca de significados atuais, pertinentes, vivos, que estimulem os jovens. Trata-se de uma postura perfeitamente adequada a todo o sistema burocrático, logístico, didático, curricular, que ignora ou finge ignorar as reais necessidades e interesses dos estudantes que, na maioria das vezes, não têm famílias que lhes deem qualquer suporte ou orientação ética que os ajude a lidar com a realidade da forma que ela se apresenta.
E, como se não bastasse a fragilidade ética e econômica dos estudantes – e mesmo por causa dela -, a violência se instala com folga no espaço de onde mais deveria ser banida, pois representa o extremo oposto de qualquer concepção que se tenha de Educação. Afinal, como levar adiante a tarefa que mais compete à escola que é a de discutir e entender as grandes questões científicas e os problemas humanos, quando o medo se impõe e faz a atenção se fixar quase que exclusivamente na luta imediata pela sobrevivência? Tamanha insegurança e constrangimento gera um imenso bloqueio intelectual para a grande maioria, pois o poder do tráfico e de outros meios violentos vai muito além das bocas de fumo e dos becos da prostituição, instalando-se nas próprias mentes de jovens que, ao nascerem e crescerem nesse meio, veem como normal a busca por uma identidade e por reconhecimento dentro da “cultura da bandidagem”.
Pois esta fome num sentido amplo, ou seja, não só de comida, mas também de amor, amizade, cultura, relações humanas, prazer, reconhecimento e tantos outros valores e sentimentos primordiais para qualquer ser humano, foi o que percebi nos estudantes pobres mostrados pelo filme “Pro dia nascer feliz”. O documentário revela como tanta carência chega a se tornar absurda quando nos apresenta as meninas que vão à escola apenas para encontrar namorado ou para ter algum outro tipo de “escape” de suas vidas pequenas, medíocres, insensatas.
É um problema social imenso que se reproduz há séculos e que não tem como estar ausente de tantas escolas das periferias ou áreas rurais do Brasil. Mesmo assim, essa fome de tudo que é o básico parece ser pouco levada em conta pelas instituições de ensino que podem até acolher os jovens fisicamente, mas não encontram meios de fazê-los desenvolver-se espiritual e intelectualmente. A exceção a esta regra vem do “esforço de Hércules” de alguns poucos professores com alguma sensibilidade artística, boa formação teórica, além de generosidade e sabedoria para transmitir aos filhos da miséria algum sentido existencial.
Na maioria das vezes, professores e professoras não têm o alcance do compromisso moral, intelectual e espiritual necessário para compreender e lidar com a complexidade das relações humanas num contexto de ensino-aprendizagem dentro desta realidade que é a nossa. Assim, comportam-se de maneira tecnicista, como meros transmissores de conhecimentos prontos, o que os distancia dos alunos porque não se mostram capazes de qualquer esforço criativo e em conjunto na busca de significados atuais, pertinentes, vivos, que estimulem os jovens. Trata-se de uma postura perfeitamente adequada a todo o sistema burocrático, logístico, didático, curricular, que ignora ou finge ignorar as reais necessidades e interesses dos estudantes que, na maioria das vezes, não têm famílias que lhes deem qualquer suporte ou orientação ética que os ajude a lidar com a realidade da forma que ela se apresenta.
E, como se não bastasse a fragilidade ética e econômica dos estudantes – e mesmo por causa dela -, a violência se instala com folga no espaço de onde mais deveria ser banida, pois representa o extremo oposto de qualquer concepção que se tenha de Educação. Afinal, como levar adiante a tarefa que mais compete à escola que é a de discutir e entender as grandes questões científicas e os problemas humanos, quando o medo se impõe e faz a atenção se fixar quase que exclusivamente na luta imediata pela sobrevivência? Tamanha insegurança e constrangimento gera um imenso bloqueio intelectual para a grande maioria, pois o poder do tráfico e de outros meios violentos vai muito além das bocas de fumo e dos becos da prostituição, instalando-se nas próprias mentes de jovens que, ao nascerem e crescerem nesse meio, veem como normal a busca por uma identidade e por reconhecimento dentro da “cultura da bandidagem”.
terça-feira, 12 de maio de 2015
TEORIA DO CONHECIMENTO - UMA INTRODUÇÃO
*Este é o texto de vídeo postado no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=FLmXYm8oVsY
Você já parou pra pensar em como é possível para nós, seres humanos, conhecermos o mundo à nossa volta? No nosso dia-a-dia, encaramos o conhecimento das coisas com naturalidade: dizemos que conhecemos a nossa família, nossa casa, os vizinhos, a escola, amigos, paisagens e etc... Os profissionais conhecem muito da sua área de trabalho. Por isso, o encanador Jessé garante a manutenção das tubulações do colégio Liceu de Artes e Ofícios, as merendeiras preparam os alimentos e a diretora Zélia Correia não ocuparia estecargo se não conhecesse muito da área de gestão da Educação. O ser humano, com sua capacidade de conhecer, já pôs os pés na lua e não para de criar novidades tecnológicas.
Mesmo com tantos sucessos da Ciência, a Filosofia não
considera simples a questão do conhecimento. Só para citar um exemplo, veja o
que o filósofo Nietzsche pensou sobre isso: “o habitual...”, quer dizer, tudo
aquilo com o que estamos acostumados, “... é o mais difícil de conhecer...”. É
o tipo de afirmação que nos torna mais reflexivos porque faz a gente parar pra
pensar até que ponto conhecemos, de fato, o que dizemos que conhecemos... Então,
vamos voltar à pergunta filosófica inicial: como é possível para nós conhecermos
tantas coisas? É uma pergunta tão importante que é o ponto de partida para um
dos principais ramos da Filosofia, a Teoria do Conhecimento. Uma questão capaz
de deixar qualquer iniciante da filosofia com a pulga atrás da orelha é que,
para diversos filósofos, nós não somos capazes de conhecer nada do mundo que
está à nossa volta. É isso mesmo: os céticos mais radicais defendem que nunca
conhecemos nada verdadeiramente porque não somos capazes de desvendar a
realidade como ela é de fato.
Mas, deixando o ceticismo um pouco de lado, vamos falar de
como surgiu a preocupação com o Conhecimento
da maneira como a Filosofia o encara. Essa preocupação começou na Grécia, com
os chamados filósofos Pré-socráticos, aqueles que se esforçaram para entendera
natureza deixando sem recorrer às explicações dadas pela Mitologia. Estes
filósofos Pré-socráticos, dentre eles, Heráclito e Parmênides, não eram
céticos, mas sim partiam da pressuposição de que podemos conhecer tudo. Para eles,
a realidade que engloba toda a natureza é racional. E como nós, humanos, também
somos racionais, temos, sim, condições de conhecer a totalidade das coisas que
existem. Resumindo: para os Pré-socráticos, se a realidade é racional e nós
também somos racionais, então, somos capazes de conhecer a realidade como ela
é.
Agora, preste atenção para esta polêmica sobre o conhecimento
que começou com Heráclito e Parmênides e, de certa maneira, percorre toda a
história da Filosofia: é que há filósofos para quem a observação ou a
experiência que temos do mundo físico é que nos dá a chave para conhecermos a
realidade total do universo. Já para outros filósofos, as mudanças que captamos
pelos sentidos não são tão relevantes quanto as coisas que permanecem eternas e
essas só poderíamos alcançar com o pensamento. É o que pensa Parmênides, para quem conhecer é atingir, pelo pensamento, o
que é sempre idêntico e imutável. Um exemplo bem simples: o importante não são
as muitas maçãs de todos os tipos, tamanhos, diversos tons de vermelho e que
nascem e apodrecem, o importante é conhecer uma única definição de maçã que
englobe todas as frutas que possam ser definidas como maçã, tanto as que já
nasceram quanto as que ainda irão nascer no mais distante futuro. Saber isso, conhecer isso, é que seria alcançar o
ser imutável da maçã, ou seja, chegaríamos ao conhecimento apenas por meio de
uma operação mental.
Já Heráclito, considera a verdade como uma mudança contínua. E é a esta mudança a que devemos estar atentos se quisermos conhecer a realidade. Para ele, a realidade é a harmonia dos contrários que nunca param de se transformar uns nos outros: o que é frio torna-se quente, o que é novo fica velho, o líquido torna-se gasoso ou se congela. Para Heráclito, a realidade que queremos conhecer é um fluxo perpétuo. Estamos, simplesmente, sendo enganados pelos sentidos quando acreditamos que alguma coisa permanece estável. Até mesmo a rocha mais sólida, a montanha mais alta e majestosa do planeta, estão em permanente transformação. Foi Heráclito quem disse: “Um homem nunca pode se banhar duas vezes no mesmo rio”. Para ele, nem o homem, nem o rio serão os mesmos que já foram, seja o tempo curtíssimo ou muito longo entre um e outro banhar-se do homem.
Resumindo a controvérsia entre Heráclito e Parmênides: enquanto, para Heráclito, o conhecimento se dá ao desvendarmos a dinâmica das mudanças, a realidade que engloba todas elas, para Parmênides, conhecer é descobrir o que é o permanente, o que é estável, o que nunca muda, em vez de nos iludirmos com as mudanças que são apenas aparentes. Mas, no fundo, apesar de caminhos diferentes, os dois filósofos pretendiam conhecer a mesma coisa: a realidade única, depositária de todas as leis que governam todas as coisas do mundo.
Já Heráclito, considera a verdade como uma mudança contínua. E é a esta mudança a que devemos estar atentos se quisermos conhecer a realidade. Para ele, a realidade é a harmonia dos contrários que nunca param de se transformar uns nos outros: o que é frio torna-se quente, o que é novo fica velho, o líquido torna-se gasoso ou se congela. Para Heráclito, a realidade que queremos conhecer é um fluxo perpétuo. Estamos, simplesmente, sendo enganados pelos sentidos quando acreditamos que alguma coisa permanece estável. Até mesmo a rocha mais sólida, a montanha mais alta e majestosa do planeta, estão em permanente transformação. Foi Heráclito quem disse: “Um homem nunca pode se banhar duas vezes no mesmo rio”. Para ele, nem o homem, nem o rio serão os mesmos que já foram, seja o tempo curtíssimo ou muito longo entre um e outro banhar-se do homem.
Resumindo a controvérsia entre Heráclito e Parmênides: enquanto, para Heráclito, o conhecimento se dá ao desvendarmos a dinâmica das mudanças, a realidade que engloba todas elas, para Parmênides, conhecer é descobrir o que é o permanente, o que é estável, o que nunca muda, em vez de nos iludirmos com as mudanças que são apenas aparentes. Mas, no fundo, apesar de caminhos diferentes, os dois filósofos pretendiam conhecer a mesma coisa: a realidade única, depositária de todas as leis que governam todas as coisas do mundo.
O problema do Conhecimento
se tornou central no debate entre Sócrates e os filósofos chamados sofistas.
Para os sofistas, havia tantas divergências de pensamentos entre os filósofos,
que a conclusão mais sensata a que se podia chegar era a de que é impossível conhecermos
a verdade das coisas. Afirmaram que tudo o que nós dizemos que conhecemos não
passa de meras opiniões. Sócrates fez oposição aos sofistas. Disse que a
verdade pode, sim, ser conhecida por nós. Para isso, o primeiro passo é
abandonar duas coisas: as ilusões causadas pelos sentidos e as palavras que não
passam de opiniões. Sócrates disse que a verdade só pode ser alcançada com o
uso do nosso pensamento, que tem o poder de nos afastar do erro e da mentira. Ele
afirmou que somos capazes de apreender a essência das coisas, a ideia universal
de cada um dos seres e de cada um dos valores da vida moral e política.De
acordo com Sócrates, portanto, podemos saber o que é a essência da verdade, da
beleza, da honestidade, da justiça, de todos os valores humanos, enfim.
Agora, vamos falar um pouco sobre o que Platão e Aristóteles
pensaram sobre o conhecimento. Para
Platão, existem quatro graus de conhecimento: o primeiro deles é a crença, o
segundo a opinião, o terceiro, o raciocínio e o quarto a intuição intelectual.
Platão afirmou que apenas através do raciocínio e da intuição intelectual
podemos atingir o conhecimento
verdadeiro. O exercício constante do raciocínio é o que faz com que nosso
pensamento alcance a pureza intelectual para captar e compreender as ideias que
formam a realidade. Platão condena a crença e a opinião pois, para ele, são
graus inferiores de conhecimento,
são, na verdade, conhecimentos
ilusórios ou das aparências. Vamos, então, usar uma imagem bem simples para
ilustrar o pensamento de Platão sobre como se dá o conhecimento verdadeiro: para ele, a Razão é como se fosse um trem
que sobe a montanha do conhecimento.
Quanto mais o trem, ou seja, a Razão humana trabalha, mais altitude ganha a
mente até chegar a uma estação onde encontramos o primeiro exemplo de
conhecimento intelectual puro que é a Matemática. Isso porque as ideias da
Matemática não dependem em nada dos órgãos do sentido e nunca se limitam a
meras opiniões, ou seja, as ideias matemáticas nunca são apenas o que achamos
das coisas sem ter comprovação. Por isso, o conhecimento matemático seria a melhor preparação que o homem pode
ter para chegar à verdade, à realidade tal como ela é de fato.
Ao contrário de Platão, Aristóteles considerava importante o conhecimento que temos por meio da
experiência ou dos sentidos. Para ele, o que conhecemos dessa forma contribui
muito para desvendarmos a realidade, não são meras ilusões como afirmava
Platão. No entanto, para Aristóteles, o conhecimento puramente sensível é
apenas o primeiro em uma escala de seis graus de conhecimento: quanto mais o
conhecimento estiver distante da sensibilidade, maior a aproximação da
verdade. Podemos dizer que, para Aristóteles, o trem que viaja pela montanha do
conhecimento percorre seis estações:
a sensação, a percepção, a imaginação, a memória, o raciocínio e a intuição. De
todas estas formas de conhecimento,
apenas a última, a intuição, é puramente intelectual. A intuição não depende de
nada que se manifesta a nós por meio dos nossos sentidos, da nossa imaginação e
mesmo do nosso raciocínio. Reforçando: a intuição é um ato do pensamento puro,
totalmente independente dos dados que obtemos por meio dos sentidos.
Agora vamos dar um salto no tempo, até a Idade Média, para
saber como o conhecimento era visto
nesta época. Época em que a Igreja
Católica pode ser tida como a guardiã da Filosofia. Por isso, o conhecimento era dependente da fé. Para
a filosofia cristã, é a fé que ilumina o nosso intelecto e serve de guia para a
nossa vontade. Assim é que nos tornamos capazes de conhecer o mundo.
No século XVII, portanto, depois da Idade Média e já em plena
Era Moderna, houve um importante movimento no “jogo de xadrez” da Filosofia. Os
filósofos colocaram em xeque o pensamento cristão sobre o conhecimento. As jogadas decisivas foram feitas com 3 perguntas que
revelavam as dificuldades da teoria cristã. Primeira pergunta: se o
cristianismo considera que o erro e a contradição fazem parte da natureza
humana por causa do pecado original, como é possível conhecermos a verdade?
Segunda pergunta: se, para os cristãos, a natureza humana é dupla, ou seja, um
misto de corpo e alma, matéria e espírito, como é possível para nós conhecermos
Deus que é imaterial? Ao mesmo tempo, como é que podemos conhecer o mundo
material se também somos formados pela alma que é uma substância incorpórea,
imaterial? Terceira pergunta: se a verdade é divina e infinita, como é que nós,
frutos do pecado original e seres finitos, com pouco tempo de vida, podemos
conhecer a verdade? A filosofia cristã, como vimos anteriormente, respondia a
estas questões afirmando que a fé, com a ajuda da Graça divina, é que nos
guiava pelos caminhos do conhecimento verdadeiro.
Os filósofos modernos não se contentaram com esta solução e uma de suas
primeiras tarefas foi fazer a separação da fé e da razão. Consideraram que as
duas eram destinadas a conhecimentos diferentes
que não mantêm qualquer relação entre si. Portanto, para os modernos, fé de um
lado, razão de outro.
As dúvidas dos filósofos modernos levaram o inglês, John
Locke a iniciar a Teoria do Conhecimento.
Locke se propôs a investigar nossa capacidade de conhecer. Quer saber também
qual a origem de nossas ideias e analisar todas as formas de conhecimento. É
assim que a Filosofia se volta para o pensamento, quer dizer, a Filosofia torna-se
o pensamento que pensa sobre si mesmo, na tentativa de desvendar suas regras, a
maneira como funciona. Locke nos chama a atenção para duas grandes orientações que
perpassam a Filosofia: o racionalismo e o empirismo.
Os filósofos considerados racionalistas são aqueles que
acreditam que o conhecimento verdadeiro,
autêntico, livre de ilusões, é aquele que tem origem apenas no pensamento, ou
seja, o conhecimento que a gente alcança sem a ajuda dos sentidos. O maior
exemplo desse tipo de conhecimento são
as verdades da Matemática. De acordo com os racionalistas, não é o contato com
o mundo exterior que nos leva, por exemplo, a tirar conclusões a respeito das
relações que existem entre os lados e os ângulos de uma figura geométrica.
Estas são verdades eternas e imutáveis que podemos atingir com o uso da Razão. Os
racionalistas acreditam que, por meio da Razão, somos capazes de atingir
verdades sólidas, não só na Matemática, mas também no campo da moral e da
ética.
Já os filósofos empiristas defendem que só podemos chegar ao conhecimento verdadeiro por meio da
experiência, ou seja, são os sentidos que nos guiam na descoberta das verdades
autênticas. Para eles, as ideias que nos fazem conhecer o mundo não nascem com
a gente, não são inatas. Quando nascemos, nossa mente seria como uma folha de
papel em branco que, aos poucos, vai sendo preenchida pela experiência que
vamos registrando na memória a partir das impressões dos sentidos. É desta
forma que descobrimos as leis que governam o mundo material à nossa volta.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
FILOSOFIA DA NATUREZA.
Este texto é um resumo das quatro principais
perspectivas filosóficas sobre a natureza desde Platão e Aristóteles: a
defendida por estes dois filósofos gregos e as concepções dominantes na Idade
Média, na Idade Moderna a partir de René Descartes, e no mundo contemporâneo, em
que se destacam críticas à modernidade e uma renovadora visão da ética atrelada
à natureza.
Na Antiguidade, a natureza era considerada a dimensão totalizadora da realidade, a realidade suprema que a tudo abrangia: tanto a ordem do mundo sensível quanto as dimensões humanas da Ética e da Política. Para Aristóteles, a natureza possuía o telos para o qual tudo se direcionava, o sentido último de tudo que existe. Os valores morais, portanto, deveriam se orientar pelo Bem indissociável da natureza e capaz de guiar nossas ações.
Essa perspectiva foi esvaziada a partir da Idade
Média, quando passou a vigorar como hegemônica a doutrina cristã. Este
esvaziamento da natureza como portadora do “telos”
de tudo deveu-se ao fato de a filosofia cristã colocar Deus como o fim supremo
a que tudo se destina, instância do Bem por excelência que a tudo orienta e
atrai, sendo Ele, portanto, o princípio que norteia a conduta humana na via da
perfeição. A natureza seria, para Santo Agostinho, não mais que um espelho a
refletir o espírito divino mas que não ofereceria o caminho mais seguro até
Deus. Este caminho deveria ser encontrado na alma humana, já que o homem foi criado à
imagem e semelhança de seu Criador. Esta desvalorização da natureza acabou por
provocar o abandono das pesquisas empíricas ligadas aos fenômenos naturais.
Na Idade Moderna, principalmente a partir de
René Descartes, teve início o processo de dessacralização da natureza, que passou a ser vista como objeto a ser explorado pelo sujeito posto à parte dela. Cabe ao sujeito do conhecimento encontrar os métodos mais eficientes
para manipular a realidade material.
Assim, a natureza vai deixando de ser pensada filosoficamente para ser considerada instrumentalmente. Para os filósofos modernos, a natureza poderia ser comparada a um relógio, a um mecanismo que funciona com precisão, cabendo ao homem desvendar todas as formas de interação (e seus desdobramentos) das partículas invisíveis e indivisíveis que compõem o cosmos.
Assim, a natureza vai deixando de ser pensada filosoficamente para ser considerada instrumentalmente. Para os filósofos modernos, a natureza poderia ser comparada a um relógio, a um mecanismo que funciona com precisão, cabendo ao homem desvendar todas as formas de interação (e seus desdobramentos) das partículas invisíveis e indivisíveis que compõem o cosmos.
A natureza é tomada como sendo indiferente
às questões humanas, como máquina isenta de valores éticos e morais. Com relação à Ética, a solução de
Descartes foi criar uma moral provisória para lidar com as situações em que decisões
imediatas se apresentavam necessárias. Como o filósofo não se aprofundou no desenvolvimento
de sua teoria moral, o que prevaleceu foi sua abordagem teórica do conhecimento a qual veio a se tornar uma espécie de metafísica artificial.
Os desdobramentos da concepção moderna de
natureza levaram filósofos e cientistas da contemporaneidade a uma crítica
radical deste modelo. Para eles, as consequências dramáticas da modernidade não são apenas parte
de roteiros de cinema mas se fazem presentes em nosso cotidiano. Catástrofes e
acidentes ambientais são vistos por uma perspectiva política, como resultado da contínua ação exploratória que visa apenas o lucro.
Por isso, no mundo contemporâneo, tem se desenvolvido uma
nova ética que serve de contraponto à concepção moderna de natureza. Uma ética
que, em vez de oferecer princípios para serem aplicados à vida, toma a própria
vida como princípio fundamental de sua constituição. Além disso, a própria
ciência vai, aos poucos, evoluindo no sentido de abandonar uma lógica
determinista em favor de uma visão que se aproxima mais da imponderabilidade
dos fenômenos ligados à natureza.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
ZYGMUNT BAUMAN - ÉTICA PÓS-MODERNA.
QUESTÕES DE MORALIDADE E UNIVERSALIDADE EM ZYGMUNT BAUMAN
Sérgio Augusto Borges
Resumo: este trabalho mostra alguns dos pontos mais importantes das reflexões de Zygmunt Bauman a respeito da Ética na era moderna e na pós-modernidade. Nos últimos cinco séculos, nos deparamos com diversas tentativas de se chegar a concepções éticas universais que foram sintetizadas em códigos provados como falhos e incompletos. A tão propalada universalidade de leis morais revelou-se sempre precária e logo à primeira vista, apenas pelo fato de existirem vários códigos com a mesma pretensão: ser universal. Para Bauman, a alternativa que se abre para a definição de parâmetros éticos na pós-modernidade é a de uma corajosa valorização dos sentimentos e impulsos morais comuns a toda pessoa humana. Nestes residiriam a base da verdadeira universalidade ética e não em códigos que se autoproclamam universais mas com universalidade circunscrita a fronteiras estatais, fato que, por si só, anula qualquer pretensão ao universal.
Palavras-chave: ética, pós-modernidade,
universalidade, moralidade
Abstract: this paper shows some of the most important points of the reflections of
Zygmunt Bauman about ethics in the modern era and in post-modernity. In the
last five centuries, we have faced several attempts to reach universal ethical
views that were synthesized in codes as proven flawed and incomplete. The
much-touted universal moral laws proved to be always precarious and at first
sight, just because there are several codes with the same intention: to be
universal. For Bauman , the alternative that opens to the definition of ethical
standards in postmodernity is a bold enhancement of feelings and moral impulses
common to every human person . These reside the basis of true universality and
ethics codes not in self-proclaimed universal but with universality limited to
state borders, a fact which in itself invalidate any claim to the universal.
Keywords: ethics, post- modernity, universality,
morality
Perspectivas moderna e pós-moderna de moralidade.
A problemática da moralidade começou
a tomar suas feições atuais no início da era moderna, quando o indivíduo passou
a se firmar como autônomo para sua própria autoconstituição. Até então, as
normas de conduta sociais eram apresentadas como se fossem de origem divina. Na
perspectiva de tais sociedades tradicionais, não havia espaço para contradições
entre o que era dado como certo e o que era tido como errado. A lógica que
imperava era a lógica da disjunção “ou/ou”. A escolha de caráter pessoal,
independente dos valores em voga, era tomada como desviante, uma vez que a escolha correta já
nos era dada por Deus. Liberdade humana, portanto, assumia um caráter de erro
desafiante dos costumes. O que se
afastava do certo – modos e meios de vida estabelecidos por Deus – só podia ser
errado, transgressor, pecaminoso.Para fazer valer as normas sociais, a
sociedade contava com mecanismos extremos de administração da conduta
individual, entre eles uma inflexível e onipresente vigilância coletiva.
Com o afrouxamento da força da tradição,
aliviou-se o peso das imposições morais ditas divinas. Foi uma consequência do
contexto histórico que favoreceu uma crescente pluralidade de situações
mutuamente autônomas para homens e mulheres. O progressivo centramento das
decisões na esfera do indivíduo abalou as rígidas concepções da ética
tradicional pois fez aflorar a infinidade de interesses e de concepções de
mundo. A lógica “ou/ou” passou a não ter mais sentido, visto que o Bem passou a
apresentar uma face contraditoriamente caleidoscópica, no sentido de que o belo poderia não ser o verdadeiro, o agradável poderia também ser o falso,
o útil poderia não ser bom. Abriu-se, desta forma, ao
indivíduo, um horizonte de escolhas em que era preciso adotar critérios
estritamente pessoais para a tomada de decisões. Tornou-se necessária, para
cada um, a constituição da própria identidade por meio do processo contínuo de
tomada de decisões. A complexidade do mundo moderno se apresenta na forma de
ações que a pessoa precisa escolher, ações que escolheu dentre outras que
poderia escolher mas não o fez. Por isso, é imprescindível calcular, medir,
avaliar.
Assim, cai por terra o tipo de lógica
que apresentava uma das vias de conduta moral como estritamente certa, a que
seria garantidora o bem enquanto outras, também possíveis, deveriam ser
descartadas por nos conduzirem fatalmente ao erro. Mas, apesar dos caminhos
abertos para a auto-escolha individual, o homem moderno parece ter se sentido
órfão de uma ética uniabarcante, que estruturasse a sociedade dando-lhe sentido
moral coletivo apesar dos caminhos abertos para as individualidades. Uma
solução seria voltar atrás ressuscitando um novo credo religioso, outra seria
estimular uma ideia não-religiosa mas convincente o bastante para compreender o
todo social. A grande dificuldade era que a nova sociedade já se estruturara
com homens e mulheres com vidas fragmentadas, separadas em muitas metas e
funções soltamente relacionadas. Num mundo assim esparso, dividido, como
esperar o sucesso de uma ideia que se pretendia “onicompreensiva” que
promovesse uma visão unitária? O dilema levou legisladores e
pensadores modernos a tratar a moralidade como algo que precisa ser planejado e
enxertado na conduta humana, não como um “traço natural” do homem. Por isso,
tentaram compor e impor uma ética como um sistema coeso de regras morais
transmitidas por meio de ensinamentos para posterior cobrança e obediência.
As inúmeras tentativas de
substituição da crença pela razão não lograram êxito. Os códigos planejados por filósofos continham,
implícita em suas fórmulas, a velha desconfiança de que a liberdade de escolha
sempre se dirige para o erro, de que, sem vigilância, os homens tendem à
degeneração e à corrupção moral. A
desconfiança fazia, então, com que a liberdade tivesse que ser contida e até
reprimida por ser considerada fonte de instabilidade. Era preciso criar
mecanismos de recompensa e de punição para que os indivíduos chegassem, sob
cálculo, à conclusão de que lhes valeria a pena seguir o caminho da moralidade
estabelecida para satisfazer os próprios interesses.
Mas como seria possível o êxito de
códigos que desqualificam a potência primordial da conduta moral, qual seja, a
autonomia de escolha, já que tais códigos
apontam para a estruturação de uma moral heterônoma, com normas impostas
de fora pra dentro, sob coação, por uma administração racional?A resposta dos
filósofos modernos foi considerar esta uma
aporia apenas temporária, apenas um resto de não-razão, nada que não
pudesse ser resolvido no decorrer do “progresso da humanidade”. Afinal, a
modernidade se caracteriza, justamente, pela solução de conflitos, ou seja,
todos os conflitos têm soluções possíveis que estão à espera de serem
encontradas. Por isso, duas “bandeiras gêmeas” se impuseram para filósofos e
legisladores do mundo moderno: universalidade e fundamentação. As duas
bandeiras foram erguidas com a pressuposição de que boas regras são aquelas
artificialmente planejadas. Para os legisladores, esses ideais de
universalidade e fundamentação seriam atingidos por meio da coação que levaria
à uniformização dos valores e práticas sociais. Para os filósofos, fundamentos
epistemológicos seriam capazes de construir modelos de natureza humana
universal: criam que haveria de haver prescrições éticas reconhecíveis por toda
criatura humana só pelo fato de serem criaturas humanas. Assim, os filósofos
ajudaram a construir o sujeito do estado como a síntese do destino humano.
“O pensamento e a prática morais da
modernidade estavam animados pela crença na possibilidade de um código ético
não-ambivalente e não-aporético”. Para ZigmuntBauman, o pós-moderno é a
descrença nessa possibilidadepois “uma moralidade não-aporética, não ambivalente,
uma ética universal e objetivamente fundamentada talvez seja uma
impossibilidade, uma contradição nos termos”.
Responsabilidades morais e normas éticas.
À deslegitimação das instâncias
garantidoras dos códigos de conduta das sociedades tradicionais, seguiu-se um
certo vácuo de normas que pudessem se legitimar como aquelas que visam o bem
comum. Esta ausência foi como que uma semente de fruto amargo deixada no solo
em que se plantou a modernidade, qual seja, o solo da individuação em que, ao
sujeito, é designada maior autonomia para tomada de decisões.
A liberdade para escolhas individuais
com base em critérios definidos por conta própria no lugar da sujeição a
padrões de conduta assumidos de forma heterônoma, pode até ter sido saudada por
intelectuais renascentistas como um desatar de condicionamentos que estagnavam
a sociedade fazendo, por exemplo, com que a mera circunstância de nascimento
fosse fator determinante definitivo e irrevogável.
No entanto, a carência de normas
gerais explicitamente assumidas por todos gerou insegurança e instabilidade na
convivência entre sujeitos que deveriam fazer parte do todo incipiente da nova
ordem burguesa. A tal semente feita de ausência gerou a crise ética que se
estendeu ao longo de toda a era moderna. Crise que se tentou superar com
elaborações constantes de códigos éticos que tinham em comum a pretensão de dar
conta da totalidade da convivência humana.
Os sucessivos fracassos parecem ter acentuado
em vez de refreado a obsessão por leis uniabarcantes. Obsessão que os óculos da
modernidade faziam ser chamada de otimismo. Justo nome na visão de quem havia
experimentado diversos triunfos da razão por conta da evolução da ciência. O
sucesso, portanto, era uma questão de tempo, pois este sempre nos leva ao
aperfeiçoamento. Assim justificou-se a crença na possibilidade de um futuro conjunto
sistêmico de leis morais que visem ao bem de todos e de cada um.
Um passo mais sofisticado nessa busca
por uma totalidade sistêmica no campo da moral foram as teorias epistemológicas
que pretenderam evidenciar alguns princípios universais constitutivos da
razão humana. Princípios que devem, necessariamente,
ser levados em conta na definiçãode
quaisquer normas de convivência. Tais
teorias epistemológicas não foram o bastante para evitar novos insucessos de
códigos pretensamente uniabarcantes. Sérios obstáculos se impuseram à teoria de
Immanuel Kant que nos deixou como legado a defesa da autonomia do sujeito
considerado por ele capaz de definir por si mesmo suas as próprias leis de
conduta com base em princípios racionais que podem ser compartilhados por todos
os seres humanos. O filósofo de Königsberg
talvez já intuísse que a “minoridade” dos sujeitos causada pela imposição de
códigos morais, em vez da adoção voluntária de leis universais pelos
indivíduos, pudesse ser a principal causa das fracassadas regulamentações.
Para
Zygmunt Bauman, um dos maiores obstáculos à autonomia dos sujeitos pretendida
por Kant sempre foi a desconfiança nos “eus reais”, desconfiança que persistiu
como nódoa na tão cultuada racionalidade do mundo moderno. Afinal, não é a
razão um bem compartilhado por todos os seres humanos, sem exceção? Se todos
somos capazes de pensar e de certificar-nos, por conta própria, que o bem que
interessa a cada um é o bem que deve interessar a todos, por que então duvidar
que homens e mulheres deixarão de fazer escolhas individuais de acordo com
normas voltadas para o bem comum? A origem desta contradição, para Bauman, tem
a ver com a própria maneira de ser da autêntica moralidade, que tem na
ambiguidade sua principal marca. Uma condição que, de acordo com o sociólogo,
foi ignorada por legisladores e filósofos por estes sempre temerem o que é de
difícil ou mesmo de impossível compreensão por meio de teorias. Para eles, o
que é inconstante, imprevisível, imponderável, deve ser forçosamente envolvido
por códigos de conduta que orientem as ações.
Então,
a moralidade oficial precisa equilibrar-se o quanto for possível em um sistema
de punições e recompensas que faz com que a liberdade de cada um seja
direcionada para fazer escolhas planejadas, calculadas, mediadas pelo amor
próprio e pela razão para se evitar o que é mal e atingir o bem para si.
Produz-se, então, uma cadeia de ações que fogem à moralidade, pois esta não
pode ser feita de ações por interesses.
Para
Zigmunt Bauman, a ética pós-moderna é aquela que abandonou a ilusão da
universalidade para leis morais e assume que é a competência moral de seus
membros que torna possível a existência contínua e o bem estar da sociedade.
Segundo Bauman, sujeitos capazes de
decisões próprias sem serem coagidos por um sistema de normas elaboradas por
legisladores que contam com a força para fazê-las cumprir, são sujeitos que
desenvolvem o senso de responsabilidade necessário para lidar com situações que
exigem consenso.
O
que Bauman chama de repersonalização da moralidade começa com a valorização do
fato da “intimidade moral”, que ele compara ao cogito cartesiano como última instância do sujeito a qual é
impossível negar. É na intimidade moral que residem os impulsos morais e as
emoções, matérias-primas com as quais se faz a autêntica moralidade da
convivência humana. Autêntica porque autotélica e indiferente a propósitos e
utilidades. É neste estado bruto da moralidade, tão temido por legisladores e
filósofos, que podemos encontrar o sedimento capaz de fazer com que a razão de
ser da sociedade se manifeste a todos os seus membros. Se é de cada um de nós
que partem os sentimentos que são acolhidos em uma cadeia intersubjetiva de
interpretações, podemos nos sentir como bases de sustentação da sociedade e,
como tais, moralmente responsáveis em vez de meros cumpridores de normas. Em vez
disso, a insistência em modelos de sociedade que não promovem a
responsabilidade individual acaba por aumentar as chances de ocorrer o que mais
se teme: o triunfo da imoralidade. Isso porque leis coercitivas partem da
pressuposição de que todos não são confiáveis e devem ser submetidos à coação
moral. Ficam, então, isentos de responsabilidade e, em consequência,
incompetentes para tomada de decisões morais. Essa incapacidade faz com que, em
momentos de crise, os sujeitos aceitem com facilidade sistemas opressivos de
governo que apresentados como solução.
A universalidade ilusória
A moralidade autêntica não é
instância que se submete a moldes ou manipulações por parte de poderes
instituidores de códigos éticos. Escapa, como água por entre os dedos, a toda
tentativa de determinação forçada. No entanto, o homem parece não estar disposto
a abrir mão das tentativas de encontrar o código ético por excelência, que,
julgando-se expressão definitiva de nossa natureza, poria fim a todos os
dilemas morais. Esta foi a busca implementada pela modernidade, na qual
caminhamos com passos por sobre tábuas de salvação de novos códigos,
abandonadas uma após a outra tão logo percebemos que a água já encobre nossos
pés.
Mais do que ninguém, os filósofos
sabem da condição relativa dos códigos éticos, os quais não escapam da
temporalidade histórica. É por isso que, para Zygmunt Bauman, as imagens de bem
e de mal que partilhamos não duram mais do que o tempo do consenso que nos
permite alguma estabilidade social, algum sentido de conjunto temporário. Para
homens e mulheres absorvidos em suas tarefas cotidianas, é provável que não
haja paralisantes inquietações quanto ao que devem ou não fazer. Parecem
satisfazer-se em agir conforme aquilo que o grupo espera de cada um, tendo a
garantia de que fazem o que é aprovado pelas pessoas que compartilham daquele
mesmo espaço e “momento histórico de eticidade”. É algo que tranquiliza a
consciência saber que os “iguais a nós” teriam feito o mesmo ou quase o mesmo
que fizemos, tendo à disposição a mesma reduzida escala de graus de uma mesma
opção.
A tranquilidade da consciência,
portanto, é grande devedora da sensação ou crença da universalidade das normas
morais em vigor. Por isso, inquietações sempre hão de sobrar para filósofos
encarregados da manutenção de tal crença, uma vez que a ela é que se vincula a
obediência da maioria. Convencida por filósofos quanto à universalidade das
normas, as pessoas dificilmente se questionam quanto à relatividade das mesmas,
pois desconhecem que outras pessoas em outros tempos e lugares, portadoras de
noções distintas das fronteiras entre o bem e o mal, tomariam decisões
inteiramente diferentes das suas. Mas esse desconhecimento não diminui a
necessidade de que o poder de persuasão dos filósofos seja forte o bastante
para estar à altura da carga de incertezas, ansiedades e medos de homens e
mulheres quanto ao futuro. São sentimentos e emoções capazes de fazer emergir a
crise dos valores ao escoar a credibilidade de códigos construídos e mantidos
por artifícios de retórica e da força.
A necessidade de grandes esforços
retóricos deriva, em muito, da incapacidade em lidar de forma tranquila com a
diversidade de formas de se encarar o bem e o mal. Segundo Bauman, poucos
autores foram como Montaigne que escreveu sobre isso de forma resignada e
equânime. As diferenças, na maioria dos casos, são vistas com horror, como
supremo absurdo a desafiar o pensador pela permanente ameaça que representa às
conquistas do mundo civilizado. A saída para o dilema da diversidade de
concepções sobre bem e mal, tem sido quase sempre a mesma: afirmar a verdade como
sendo única por definição e, por consequência, também a retidão e os preceitos
morais. É preciso, portanto, afirmar com todas as letras que outras normas são
não apenas diferentes mas também erradas e más e que são aceitas apenas por
ignorância, imaturidade ou por má-vontade,
acusações que servem de escada pela qual se eleva a autoridade das normas
morais defendidas.
Além da negativação das normas
alheias, os defensores da moralidade que se sabe apenas mais uma entre tantas,
precisam, é claro, embasar seus argumentos em alguma forma de positividade. O
mais usual tem sido atribuir às normas que defendem uma superioridade que seria
garantida pelo estágio evolutivo presente, ponto de culminância do processo
constante de aperfeiçoamento da humanidade ao longo do tempo. Dessa forma, temporaliza-setoda e qualquer alteridade
feita pelo homem, inclusive a alteridade ética. Tudo o que dentro das normas em
uso se apresenta como contraditório, dissonante, ou que não responde
adequadamente aos desafios e necessidades históricas é considerado mero
obstáculo passageiro, algo a que a evolução saberá dar conta. A temporalização
atesta ainda que outras formas de moralidade são como relíquias que dilataram
seu tempo, sendo praticadas por quem já está de fato morto, como cadáver
insepulto que permanece inconvenientemente instalado na ante-sala da era
moderna.
A maneira de lidar com qualquer
presença de contundente negação da norma é o menosprezo. Por esta via, tudo que
ameaça os princípios de coerência e congruência, marca profissional dos
filósofos, é tomado como pura aberração. Claro que, para ter a anuência das
pessoas quanto a isso, é preciso que estes mesmos princípios da lógica
filosófica tenham sido incutidos nas mentes dos que estiverem sob a jurisdição
da norma ou mesmo que neles já estejam projetados os interesses de poderosos
locais. Poderosos que, para defenderem suas próprias ambições, usam como
embuste bandeiras universalistas. A
difusão das formas de raciocínio coerente é tarefa preponderante de todo
filósofo comprometido com a justificação das normas pois trata-se de uma forma
de pensar que tende à previsibilidade, característica comportamental valiosa
para todo e qualquer governante que exerce o poder em nome de sua própria
vontade.
A crença dos arautos da modernidade
de que possuíam uma ordem moral superior e mais avançada no tempo
transformou-se em sólida convicção, passando a ser usada como justificativa
para nações-estado imporem-se sobre outras. Afirmavam ser impulsionadas pela
causa enobrecedora de fazer a civilização espalhar-se pelo globo. A alteridade
cultural projetada sobre a seta do tempo, forjava a visão do outro como
estagnado no passado, sempre associado ao que ainda não evoluiu ou
aperfeiçoou-se. A estas relíquias incongruentes destinadas à extinção, a
história não reserva outra saída a não ser a subordinação àqueles capazes de
difundir o conhecimento que leva à mudança para o melhor.
As inquietações do universalismo.
Como discurso moldado para legitimar
o poder estatal, o universalismo encontrou adversários postos tanto como força
centrípeta de implosão, como força centrífuga de dissolução de sua vontade.
Como representante da primeira, uma coleção heterogênea de paroquianos,
parentes e outros habitantes locais; como agenciadores da segunda, filósofos de
boa-fé para quem o autêntico postulado da universalidade põe abaixo não só as
atribuições morais de comunidades locais, transformadas em unidades
administrativas da nação-estado, como também a autoridade moral reivindicada
pelo estado. Foram adversários que se postaram contra todo e qualquer projeto
universalizante que revelasse as ambições convenientemente uniformizantes para
estado moderno
Para os comunais, a prática moderna
de universalização manifestou-se como força de opressão, ato de violência
praticado contra a liberdade humana, ultraje e ofensa esmagadora de culturas
estabelecidas por sucessivas gerações. Seus costumes locais foram
ridicularizados e relegados ao plano das superstições que resistiam ao poder
centralizador, tendo que, por isso, ser condenadas à morte. Ligadas que estavam ao tempo e ao território,
as culturas localizadas foram envergadas por duros golpes de espada de certos
princípios universais que exigem que normas morais passem pelo crivo da
extratemporalidade e da extraterritorialidade.
O golpe, no entanto, produziu também
estragos no mesmo ponto de onde partiu. Ao mesmo tempo em que se impunha por
meio da honrosa alegação de alojar-se no cerne da natureza humana, o código
moral estatal desmascarava-se a si mesmo ao limitar sua abrangência aos
territórios sujeitos a determinada influência política ou reivindicados por
esta. Pregava, portanto, uma universalidade natimorta pelo fato de
circunscrever-se às fronteiras da nação-estado, contradição de origem que se
revela como expressão de interesses apenas diversos dos interesses de
lideranças locais. Afinal, a parcialidade implícita em códigos com validades
delimitadas por fronteiras os exclui por completo da qualidade de universais.
Que argumentos, então, poderiam ser usados para fazer com que membros de
comunidades locais adquirissem visão mais ampla e facilitadora da substituição
de um código moral por outro? Como
convencê-los a elevar seu ponto de vista a um plano superior e mais abrangente,
imparcial, crítico de costumes enraizados e livre de pressões comunais. Por que
deveriam desatrelar-se de lealdades e particularismos comunais e aceitar a
submissão ao modelo de cidadania arquitetado pelo estado?
Também para os universalistas de
boa-fé, as práticas universalizantes dos estados são inaceitáveis. Para eles, é
nulo o princípio aristotélico da política como instância primeira de gestação
do humano. O autêntico postulado da universalidade, portanto, destoa de toda e
qualquer comunidade política autodeterminada, seja ela de âmbito local ou
nacional. A exigência universalista é sempre direcionada contra a polis, uma vez que esta, como recurso de
autoafirmação, sempre defende a particularidade de seus membros em relação aos
membros de outras polis. O outro, a
alteridade localizada além das próprias fronteiras, contrapõe-se ao eu
“situado” que se julga membro da comunidade cuja moral seria a universalmente
válida, uma oposição capaz de suscitar intolerâncias recíprocas. Para os
universalistas mais exigentes, a moralidade verdadeira se radica apenas em
qualidades e capacidades possuídas por indivíduos enquanto pessoas humanas. O
que for contrário a isso não passa de falso código moral, proclamado por
poderes bem mais estreitos que o universal. Consideram códigos morais surgidos
de interesses grupais ou em nome de “suprema sabedoria grupal” como instâncias
de conspiração entre caudilhos atacados de ganância pelo poder.
Pregam os filósofos de boa fé que um
poder, para ser universalista de fato, deve ser capaz de identificar a
população que está (ou que pode vir a estar) sob sua administração com a
espécie humana em sua totalidade. Porém,
uma tal perspectiva de condução do poder tem pouquíssima probabilidade de ser
levada a cabo num mundo em que as agências que promovem o universalismo não
detém uma soberania que seja verdadeiramente universal. Na realidade desenhada
pelo mundo moderno ainda em vigor, as fronteiras dos estados é que delimitam o
horizonte universalista. Com isso, o forma-se um emaranhado de autoridades que
se consideram detentoras de padrões universais de moralidade, diversidade de
posições que põe sob suspeita o valor de cada uma das ditas
universalidades.
Neste cenário de “universalidades”
circunscritas a diferentes domínios limitados por fronteiras entre vizinhos,
cria-se a solidariedade entre os governantes, o que possibilita que cada um
deles, reconhecendo os demais como soberanos e respeitando os limites
territoriais das jurisdições, governe de acordo com as leis proclamadas em seu
território. É esta solidariedade que serve de base para a formação de um novo
modelo de normas morais que possibilita a convivência entre as nações e entre
os povos. Segundo Bauman, a exemplo do ocorrido no interior de cada estado, as
normas morais supra-estatais também são promulgadas segundo o padrão da lei
universal mas acabam por assemelhar-se a normas de relações internacionais.
Tornam-se, portanto, um arrazoado de diplomacia, barganhas e busca de “pontos
de consenso” genuínos ou fictícios. No final das contas, a universalidade
supra-estatal acaba por ter pouco de raízes comuns e muito de denominador
comum. Não há como esconder a evidência de que existem várias concepções de
moralidade universal e que somente a superioridade da força de um dos poderes
permite que sua concepção prevaleça sobre as outras.
Para Zygmunt Bauman, códigos de
moralidade supranacionais são mais uma forma de conceituação processual de
universalização, um tipo de conceituação que serve de último abrigo ao sonho de
universalidade como destino último da espécie humana. Foi este o abrigo que
ofereceu segurança à afirmação de que a “marcha do tempo” nos levará,
irremediavelmente, à universalização: confiança tão grande no futuro como
portador do remédio para todos os males, que é capaz de toldar os olhos para a
realidade das contradições que se apresentam no projeto universalista moderno.
Não foi à toa que Diderot nos chamou a atenção para a enorme crença que o homem
moderno depositou nos tempos que estão por vir, atribuindo a estes a capacidade
de corrigir todas as injustiças do presente e considerando-os como estuários de
um movimento que caracteriza a própria humanidade, o movimento das qualidades
que desafiam cada um dos seres humanos. Foi uma confiança que se alimentou da
imaginação e da fantasia, forças humanas capazes de se espalhar livremente no campo
fértil do porvir sem terem que se incomodar com
experimentações empíricas.
Coube à fase pós-moderna a destruição
de toda essa crença que se tornou característica fundamental da era moderna. Na
pós-modernidade, o que se apresenta dentro do contexto da historiosofia da
universalização é a chamada globalização. Esta, no entanto, não envolve a busca
de unidade entre as autoridades políticas, culturais e morais. Os fatores que
se supõem “globalizar” são considerados mais não-nacionais que inter- ou
supra-nacionais, fatores como a difusão
global da informação, da tecnologia e interdependência.
A ideia de moralidade universal,
depois de despedir-se da fundamentação na “missão civilizadora” das
nações-estados que se proclamavam mais desenvolvidas ou mais avançadas
culturalmente, se é que deva sobreviver, só pode ter como pontos de apoio em
fatores que são inerentes à espécie humana: os impulsos morais e pré-sociais,
anteriores, portanto, a todo e qualquer resultado comum ao processamento
social, produtos derivados de ações legisladora, ordenadora e educadora.
No campo de batalha em que nos deparamos
com pluralidade nova ou renovada de desafios morais, estão à espreita os comunitários, adversários dos pregadores
do universalismo e que oferecem como alternativa um já familiar refúgio cômodo
e acolhedor da “comunidade nativa”. Esta
é a alternativa que resta aos universalistas que sucumbirem na batalha ao aceitarem
como eterno e irremediável fato a persistência da pluralidade de soberanias
políticas e econômicas. Uma aceitação que pode ser considerada como posição
conformista e contrária à persistência na promoção de uma moralidade distante
de determinações grupais ou estatais mas ligada à totalidade da espécie humana,
posição que exige forte resistência por estar ancorada no território frio e
abstrato dos valores morais universais.
Considerações finais.
No campo de batalha em que se trava a
luta por hegemonias de concepções morais, os defensores de uma moralidade que
se ancora na pessoa humana têm como adversários tanto os grupos chamados
comunais, defensores do eu “situado”, como as organizações políticas estatais. Ambos
são portadores de concepções destrutivas do universalismo proclamado pelos
filósofos de boa-fé: os comunais porque o tomam como ultrajante violação de
direitos, veículo de opressão e de violência contra a liberdade; as
organizações políticas estatais porque restringem e congelam a perspectiva
universalizante no interior das fronteiras nacionais para atender a interesses
políticos. Ao contrário do que é pregado pelos universalistas, as nações-estado
particularizam seus membros frente aos de outras nações, propagando entre seus
indivíduos a crença em sua unidade e semelhança que os opõe aos estrangeiros, tomados
como outros diferentemente situados por estarem enraizados em outras polis.
Segundo Bauman, a alternativa
restante para os universalistas de boa-fé é, em primeiro lugar, o não conformismo
em relação às crenças que consideram irremediável e sem fim a existência de
pluralidades de soberanias políticas e econômicas, as quais teriam sempre nas
mãos o poder de moldar e manipular as normas morais. Em segundo lugar, a defesa
de uma moralidade fundamentada em nossos impulsos e sentimentos morais, traços
que fogem às determinações de processos de constituição de moralidades
heterônomas instaurados sejam no seio de uma comunidade local, sejam no de uma
comunidade nacional. A formulação e a defesa de uma tal moralidade universal
requer uma visão mais tranquila quanto ao fato de as imagens de bem e mal
diferirem de um lugar para o outro e de um tempo para outro tempo. Afinal, tais
imagens têm sido forjadas não a partir da perspectiva do universalismo mais
abrangente – aquela que tem como base a própria espécie humana - mas sim a partir
de perspectivas circunstanciais, originadas de interesses políticos e
econômicos.
Referência
BAUMAN,
Zygmunt. Ética pós-moderna. São
Paulo: Paulus, 1997.
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